O melhor da Bett desse ano não aconteceu no palco

Depois da Bett: o que mais marcou foi a conversa entre pares; por que palestra não falta e troca sim; e por que IA no currículo precisa de escola falando com escola.

Semana passada eu te escrevi antes da Bett começar, dizendo mais ou menos o que eu esperava encontrar e propondo um exercício de critério antes de você entrar na feira. Voltei. E quero te contar como foi.

Começo pelo que mais me marcou de positivo: as conversas. Foram dias intensos de encontrar gente que eu acompanho há anos, conhecer mantenedores e diretores que me leem aqui mas eu nunca tinha visto pessoalmente, reencontrar clientes da Lumni e ouvir como eles estão tocando o ciclo, e trocar com diretores que ainda não são clientes mas que dividiram comigo desafios da escola deles. Se você foi e a gente cruzou no corredor, no café, ou numa daquelas conversas que começam e acabam quarenta minutos depois em algum canto, obrigado de verdade. Foi a parte da feira que mais me ensinou.

E é exatamente daí que sai a provocação que eu queria fazer com você hoje.

Tem palestra demais e troca de menos.

Eu ouvi de muita gente, e concordo, essa mesma observação sobre a feira. E não é que as palestras sejam ruins. Tem palestra muito boa, com gente séria no palco. O ponto é outro. Escola particular hoje não tá carente de conteúdo. Diretor não tá precisando de mais um especialista falando de cima do palco sobre o futuro da educação. Diretor tá precisando de um espaço pra perguntar pra outra diretora, da escola da cidade vizinha ou da outra ponta do país, como ela resolveu o problema de evasão no Fundamental, como ela montou o time de captação, como ela tá conduzindo a conversa de IA com os professores, como ela tá implementando aquele método que todo mundo elogia mas ninguém conta direito como faz funcionar.

Perceba que a diferença é sutil mas é tudo. Conteúdo expositivo a escola já tem em excesso. Tem livro, tem newsletter, tem podcast, tem curso online, tem LinkedIn. O que é raro, e por isso uma feira como a Bett poderia liderar, é o encontro estruturado entre pares pra discutir prática. Mais mesas de cinco diretoras conversando sobre o que tentaram, o que falhou, o que ajustaram. Mais workshops de noventa minutos onde mantenedor traz um problema real e sai com três caminhos. Mais rodas de conversa com facilitador que pergunta as coisas certas em vez de palestrante que dá as respostas prontas.

Esse é o tipo de espaço que eu mais sinto falta. E acho que muito mantenedor que volta da feira sentindo que “ouviu muita coisa boa mas não levou nada concreto pra segunda-feira” tá falando exatamente disso, mesmo sem nomear. A feira tem a parte comercial, e tudo bem ela ter, é da natureza desse tipo de evento. Mas eu gostaria de ver, no ano que vem, mais espaço dedicado a escola conversando com escola, sobre prática, sem necessariamente palco no meio.

Um exemplo concreto: IA dentro do currículo

Eu confesso que não andei a feira inteira nem visitei todos os estandes, então não tô aqui pra cravar que o assunto não apareceu. Mas pelo que circulei e pelo que ouvi, vi muita IA aplicada à gestão, ao atendimento, à correção, ao plano de aula. Vi pouca discussão sobre IA como objeto de aprendizagem dos próprios alunos. Letramento de IA pras crianças e adolescentes que estão hoje sentados nas escolas.

E essa é uma pauta que vai precisar ser discutida com peso, porque a velocidade com que isso tá mudando lá fora não conversa com a velocidade com que a escola tá conseguindo se preparar pra ensinar isso. Não tenho resposta pronta, ninguém tem ainda, e justamente por isso é o tipo de tema que precisa de troca entre escolas, não de palestra com slide bonito.


De novo, a reflexão. O que você levou da Bett pra segunda-feira que mudou alguma coisa concreta na sua escola essa semana? Se a resposta é “pouco”, talvez não seja por falta de esforço seu. Talvez seja sobre o formato.

Um abraço.